terça-feira, 28 de julho de 2009

Quedelhe a água?


A mais ou menos dois anos atrás, comecei a repensar de maneira profunda minha atividade profissional. Sentia uma necessidade de devolver à sociedade seu financiamento depositado através dos meus estudos de Engenharia Química numa Universidade Pública. E comecei a pensar em que segmentos meu conhecimento e habilidades teriam alguma relevância. Desse dia, saíram minhas áreas de interesse em atuar. E coloquei em primeiro lugar, num ranking de três, a área de conhecimento e recurso que a meu ver é o DNA da nossa diversidade.
Não é a toa que as pretensões de colonização extraterrestres da Nasa correm atrás da necessidade de uma constatação "vital": a existência de fontes de água, em qualquer estado físico. Esta pequena maravilha tri-atômica resultado da combinação de Oxigênio e Hidrogênio, carrega particularidades físico-químicas que permitem tecer a tênue linha da vida como ela é em nosso planeta. Seu comportamento anômalo, comparado a outras moléculas semelhantes como o sulfeto de Hidrogênio (H2S) da mesma família, permitiu fenômenos que foram altamente benéficos para o desenvolvimento da vida. Só pra citar um, o fato do gelo (seu estado sólido, só pra ressaltar) flutuar e não afundar, como seria de se prever por lógica, permitiu que durante a formação dos mares, uma capa protetora contra os raios ultravioletas viabilizasse o tempo e espaço para o desenvolvimento da vida no mar. Poderia ficar falando de várias e maravilhosas anomalias físico-químicas que permitiram o início de mecanismos de desenvolvimento na vida na Terra. Mas quero nesta resenha, dar um panorama rápido de como está nossa relação com este maravilhoso elemento.
Nossa dependência da água é transformada a aproximadamente 12.000 anos atrás, com a fixação do homem à terra, e início da agricultura. Em busca de alternativas energéticas, fomos obrigados, devido a uma seca de mais de 1.000 anos (Armas, Germes e Aço - Jared Diamond - 1997), a buscar outros alimentos que não oriundos da caça. O Homo sapiens começava de maneira sistemática a interferir na evolução genética dos seres vivos ao segregar e estimular o plantio de grãos que lhe traziam benefícios em sua dieta. O trigo e a cevada, presentes no Crescente Fértil, foram e ainda são os grãos que complementaram a nossa busca vitamínica e calórica. Criamos os pequenos e transformados ecossistemas que viriam a ser as pequenas plantações agrícolas e criadouros de suínos (M. Rosenberg - Un. Delaware). Em nossa iniciativa de domesticar plantas e animais, sentimos a óbvia necessidade de retirar do meio doses extras de água, acima da até então usada pra atender nossas necessidades metabólicas como indívíduos. Desde então até os dias de hoje, nosso consumo desse bem natural passou a ter um peso significativo no nosso meio de vida moderno. E está ligado intensamente à nossa produção de alimentos. Nossa distribuição de uso da água doce do planeta, segundo a ONU, é de 70% para a Agricultura, 20% para a Produção Industrial e 10% para consumo humano direto. E como já citei na minha outra resenha sobre a nossa sede energética que mantém nosso status moderno de civilização, há um novo concorrente nesta distribuição: a pressão dos biocombustíveis, na busca por fontes alternativas aos combustíveis fósseis.
Bom, não deveríamos preocuparnos, já que, apesar do nome por nós dado a este incrível planeta ser Terra, dois terços de sua superfície ser composta de água. Mas desses 1,6 bilhões de Km3, apenas 2,7% aproximadamente é água doce (OMS). Apenas 0,3% está disponível de maneira mais ou menos fácil pra uso, na forma de rios, lagos ou lençois subterrâneos de até 750 metros de profundidade. Com um forte agravante: estamos poluindo essa quantidade em tempos recordes. Nossa disponibilidade de água doce está diminuindo ao mesmo tempo que nossas necessidades por ela crescem exponencialmente junto à nossa explosão demográfica. O fenômeno do aquecimento global (independente do causador) traz mais uma incógnita a nossa capacidade de planejamento: mares inteiros de água doce estão neste momento evaporando e sendo carregados para longe de nossas expectativas de extração. Todo o ciclo hidrológico está vivendo um período de stress e as reservas estão sendo consumidas e não renovadas em suas fontes.
Segundo a OMS, dois quintos da população mundial não têm acesso ao saneamento básico, levando a epidemias em massa de doenças transmissíveis pela água. Metade dos leitos de hospitais do mundo está ocupada por pessoas com doenças propagadas pela água e de fácil prevenção segundo a própria entidade. A água contaminada é uma das causas de 80% de todas as enfermidades e doenças do mundo. Segundo Maude Barlow (Água, Pacto Azul, 2007, ed M Books, "na última década, o número de crianças mortas por diarréia ultrapassou o número de pessoas mortas em todos os conflitos armados DESDE a Segunda Guerra Mundial." A cada oito segundo, uma criança morre por beber água suja, e um bilhão de pessoas não tem acesso a água potável.
Essa disparidade não é democrática também. Segundo a OMS, o ser humano necessita de 50 litros/dia/hab para beber, cozinhar e fazer sua higiene. O norte-americano usa quase 600 litros/dia. O africano, 6 litros/dia. As fracas políticas públicas dos países em desenvolvimento também mostra seus pífios resultados: apenas 2% da água residual da América Latina recebe algum tratamento, e mais de 700 milhões de indianos não têm saneamento básico adequado. Na China, 80% dos principais rios estão em tal estado de degeneração que não apresentam mais condições para a vida aqúatica, e 90% de todas as águas subterrâneas sob as principais cidades está contaminado. Dos 25 países do mundo com a pior "oferta" de água limpa, 19 são africanos. Por conta desse panorama, milhares de angolanos morreram de uma epidemia de cólera em 2006.
Nesse pintura do holocausto, há os que apostem em soluções tecnológicas como a dessalinização por exemplo. Há de se colocar na conta das soluções, o dispêndio energético para que soluções como essas sejam minimamente viáveis. Existe o custo entrópico para que a Osmose Reversa aconteça e transforme agua salgada em água doce. Isso custa muitos mais dólares/m3 que os métodos mais convencionais usados por enquanto. Além disso, deve ser somados os custos da distribuição e manutenção das redes. Lembro-me de ter participado de uma apresentação da Suez em 2002, mostrando os resultados da priovatização das Águas de Manaus em seus 2 anos de operação. Seu maior desafio: reverter a quantidade de "gatos" no sistema de abastecimento. Era algo impressionante a quantidade de canos que retiravam água da principal adutora: o conflito social com a multinacional francesa estava escancarado. Apesar de hoje pertencer ao grupo Solvi, dissidentes da antiga Suez aqui no Brasil, ficou claro que as soluções neoliberais de mercado auto-regulatório, não foram suficientes sem o avanço de políticas públicas.
O desafio é imenso, o plano das nações em conjunto com a ONU é fraco. Os resultados são os mostrados. Desse jeito, não haverá explendor tecnológico: poderemos sucumbir antes de nossos antropocêntricos desejos de civilização por tratarmos o primeiro e mais precioso dos bens da vida como uma commodity inesgotável.

(Foto: Lynn Johnson)

3 comentários:

Rudolf Hellmuth disse...

oq vc pretende fazer a respeito, Rambo? Fiquei curioso.

Rômulo disse...

Talvez mais importante do que saber o que 'ele' fará a respeito é saber o que 'nós' faremos. Via de regra, ficamos assitindo e reclamando quando aparece no noticiário, né?

Diário de Bordo disse...

Caro Rudolf... pretendo começar escrevendo, alertando, educando, e por último quem sabe...