domingo, 30 de novembro de 2008

Relatos do Caminho de Santiago - VII

Das memórias do guerreiro amazônico...

A Solidão

... Era meu primeiro dia sem a Isabel. Havíamos passado momentos mágicos todos os seis dias anteriores como já contei. Para mim era um dia importante porque eu também queria começar a colocar a prova o meu ser. Andar sozinho significava um grau mais intenso de introspecção. Eu começava a pensar que o resto do trajeto até Santiago de Compostela seria assim. Ao início, eu estava ansioso para saber como me comportaria comigo, pois finalmente começaria a confrontar minha verdade absoluta e companheira por tanto tempo: a solidão. Ela não chegou prontamente, é verdade. Veio chegando sem que eu me desse conta. Aquele dia a Najera significou o maior desafio físico de todo o Caminho. Era mais difícil, ao estar sozinho, entreter-se mentalmente para amenizar a distância até a próxima vila. Lá pelas duas da tarde, parei nesse pequeno povoado chamado Ventosa, pois os meus pés simplesmente não aguentavam mais. Sentei num banquinho público deserto, tirei meus calçados e comecei a cuidadosamente massagear os meus pés. Com carinho, esfreguei os paliativos: cataflan, vic-vaporub e vaselina. Dediquei uns bons 20 minutos para descansar, e foi difícil decidir retomar a caminhada. Começou a passar pela minha cabeça dormir por ali mesmo, nesse povoado. Com muito custo decidi seguir em frente, e foi dessa vez que percebi que para pés cansados, parar um pouco é pior do que continuar. Enquanto eu passava o tempo tirando uma foto e outra, conversando com a minha sombra, comecei a tentar imaginar como estaria sendo aquele momento se estivesse acompanhado pela Isabel. Conclui que provavelmente estaria rindo, conversando, ou simplesmente contemplando-a. Mas agora eu estava só. Eu não tinha medo de estar a sós. Me dei conta que eu já conhecia suficientemente a dinâmica do Caminho. Já não tinha medo do desconhecido entre as etapas. Já sabia qual seria a minha rotina pelos próximos 22 dias se o meu corpo permitisse. Mas depois de 6 dias caminhando, e finalmente sem a Isabel, eu não conhecia ninguém. Possuía apenas frágeis enlaces com rostos familiares aos quais nos desejávamos reciprocamente "Buen Camino" quando nos cruzávamos. E naquele terreno onde eu já me sentia com certo domínio, percebi que eu estava desamparado. Essa sensação de desamparo foi o aviso que a solidão já estava caminhando comigo. E num piscar de olhos, me dei conta que essa sensação de desamparo era a essência da minha solidão em São Paulo. Uma cidade com 19 milhões de habitantes, e eu me sentia só a maior parte do tempo. Me sentia entretido durante as minhas horas de labuta, mas nos dias onde não sabia como passar o tempo, a solidão realmente assolava minha alma. E esses eram os dias que eu me sentia menos feliz. Nesse jogo de perguntas sem resposta que o intelecto desafia, percebi que esta solidão, tão antiga companheira, estivera comigo em tantos momentos que teoricamente eu não estava a sós. Sim, porque lembrei de tantos momentos nos quais também me sentia sozinho na cidade onde meus amigos se encontravam. Me senti só enquanto fui casado, me sentia a sós a muito tempo, e isso me consumia uma grande quantidade de esforços para me manter feliz. Eu perguntava ao Camino, o que eu deveria fazer para não viver nestes altibaixos da felicidade: horas exultante em extrema glória à vida, horas tão próximo da depressão...
Logo depois de sair desse pequeno povoado, entrei numa trilha do Camino que margeava uma rodovia de bastante movimento. A trilha por onde eu caminhava estava distante uns bons 10 metros da autopista, separada por uma mureta de concreto e um alambrado acima desta, mas mesmo assim, o tráfego de caminhões e carros era intenso. Isso é um grande incômodo para o introspectivo peregrino. O ruído dos motores e aço, e a própria velocidade com que os veículos passam perturbam a idéia de tranquilidade a qual cada uma já está acostumado. Nesse momento, eu já havia recorrido ao IPOD às minhas orelhas, enquanto ouvia uma psicodélica canção do Pink FLoyd. Meus olhos poupei ao olhar para a esquerda, desviando-os da autopista e buscando do outro lado, flores e plantinhas. Já estava absorto com a música e plantas à minha esquerda, quando tive a impressão que alguém estaria me ultrapassando pela direita. Era a sensação de não ter percebido um peregrino chegar ao meu andar e de repente alguém já estava passando ao meu lado. Nesse mesmo segundo (sim, tudo o que me aconteceu a seguir demorou apenas segundos), senti dessa "presença" como que um aviso despreocupado. Como se estivesse dizendo dentro dos meus pensamentos : "olhe isso!". Não estou dizendo que ouvi uma voz, nem nada do tipo. Foi somente uma sensação de alguém à minha direita querendo mostrar-me alguma coisa. Poderia até dizer que senti um pequeno tapinha no meu ombro. Instantaneamente, quando rompi minha linha de absorção a qual estava compenetrado, comecei a lentamente mover meu olhar para a direita. Como que em câmara lenta, meus olhos cruzaram o caminho à minha frente, e seguiram em direção à autopista. Por alguma razão que não explico, meus olhos se fixaram diretamente em um caminhão que vinha em minha direção a uns 500 metros de distância. Era mais um caminhão entre os outros. Somente se destacava a sua carreta azul, pois mal podia ver o resto por cima da mureta já que este estava ainda um tanto distante. Passaram outros dois caminhões ao meu lado e meus olhos continuavam acompanhando esta carreta azul, enquanto minhas pernas e bastão continuavam me levando em frente. Foi quando o caminhão já começava a cruzar-me que não quis acreditar nos meus olhos. Comecei a rir sozinho maravilhado. Em sua carreta azul, escrito em letras garrafais aparecia: IORIO, meu tão raro sobrenome italiano. Eu ainda estava sorrindo perplexo enquanto esfregava minha vista como nos desenhos animados para ter certeza que estava escrito IORIO, quando me ocorreu tirar uma foto. Minha mão dirigiu-se automaticamente ao estojo da minha câmera que carrego sempre no meu cinto, mas percebi que não teria tempo suficiente para ligá-la, armá-la e tirar a foto. Não era necessário. Essa mensagem era somente para mim.
Quando não era mais possível ver o caminhão, eu ainda sorrindo falei em voz alta: "Obrigado".
Foi desde então que me dei conta que nunca estive sozinho, e que nunca mais assim me sentiria. Minha solidão crônica estava curada. Apenas me foi providenciado um pequeno detalhe para que tudo fizesse sentido, e para que esta pequena lembrança fosse por mim invocada quando a solidão silenciosamente estivesse chegando...

Namaste

Marcos
vosso humilde narrador.

2 comentários:

Rômulo disse...

No fundo, somos bichos solitários...

rena disse...

cadê as outras 6 partes do relato???

esse rômulo é tão profundo nos seus comentários hehehhehe