domingo, 15 de fevereiro de 2009

Por Um Grau a Menos (One Degree Less)

Como funcionário de uma das empresas associadas ao GBC (Green Building Council) Brasil, acabei acompanhando o nascer desta campanha a um pouco mais de ano atrás. Agora ela já chega com um vídeo ilustrativo e tom de campanha em canais abertos que resolveram apoiar a causa. No site www.onedegreeless.org, é possível ainda ter mais informações. O vídeo é simples mas passa uma mensagem bacana. No site, é possível ver o embasamento científico dessa iniciativa que pretende colocar a cor branca nos telhados urbanos, com o intuito de refletir grande parte da radiação que hoje é absorvida pelas ilhas urbanas. O efeito que hoje naturalmente é conseguido nas capas polares através do gelo (que está derretendo), seria simulado através da pintura nos tetos. Por ser uma iniciativa tão simples e de baixo custo, acho que vale a pena tentar. Segundo os estudos de Hashem Akbari da Lawrence Berkeley National Laboratory, da Califórnia, transformar os tetos normais em "cool roofs" através da aplicação de uma tinta branca com reflexão igual ou superior a 0,6; permitiriam uma redução dos efeitos da incidência solar como a necessidade de refrigeração ambiente, em outras palavras conforto térmico com menor demanda energética.
No site da ODL (One Degree Less) é possível ver várias partes do estudo com citações dos ganhos possíveis (em termos econômicos) através desta simples iniciativa. Não gosto de contabilizar nada sobre o tema, porque se não conseguimos com certeza prever o tempo daqui a uma semana, me parece muito pretensioso acreditar que inicativas como essa resultem em números citados como: "Permanentemente aumentando a reflexão solar de tetos e pavimentos em todo o mundo pode gerar uma compensação equivalente à emissão de 11 bilhões de carros por ano. Isto significa tirar das ruas cerca de 600 milhões de carros por 18 anos.", ou até sejam capazes de diminuir um grau no planeta exatamente. Ainda sou mais partidário da instalação de green roofs (telhados verdes com plantinhas) pelo mundão afora, o que é muito mais natural. Mas como também estamos falando de custos mais altos para tal, uma medida intermediária como pintar de branco tetos planos ou com cores frias tetos inclinados, pode ajudar um dos mecanismos naturais que está desaparecendo com o derretimento da Groenlandia a ser compensado de alguma forma, nem que por inteiro.

Fica a dica então pra você que se não viu vai acabar tendo contato com mais essa nova iniciativa do Green Building Council Brasil para amenizar o efeito climático antrópico sobre planeta. Mais informações em http://www.onedegreeless.org. Assista o vídeo com o título "Correções". Bem bacana.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O (Des)serviço da (Des)informação

Ao final de 2006 eu estava eufórico: em 2005 eu havia lido e tomado a grande chapuletada de Colapso, do Jared Diamond. Minhas idéias sobre pra onde nos levava o consumo e o que eu podia fazer contra isso como executivo simplesmente fervilhavam. Cheguei a dar de presente o livro a um dos meus melhores amigos porque sabia que se eu não o fizesse ele não o leria, e eu precisava discutir isso com alguém que tivesse nível para fazê-lo. Em 2006, veio Al Gore o ganhador do Oscar "Uma Verdade Inconveniente". No reveillon de 2006, ao rezar meus mantras e mentalizar as resoluções de ano novo, olhei para trás e sorri: 2006, o ano em que o mundo tomou conhecimento do aquecimento global!
Para um mundo onde a maioria dos cientistas acreditava até a década de 80 que uma nova idade do gelo estaria a caminho, acho que tivemos um furacão passando em nossa concepção e entendimento de um mundo mais próximo da Gaia de James Lovelock. Realmente fico contente por estas toneladas de informação virem a tona, mesmo quando dirigentes imbecis como o Bush perseguindo de maneira perversa os cientistas que se propuseram a estudar o fenômeno de maneira séria. Diria que estamos vivendo um tempo quase romântico ao vermos o novo presidente da nação mais desenvolvida do mundo bradar em sua primeira semana no poder as resoluções de transformação da economia via geração de tecnologias sustentáveis. Mas não quero na verdade falar da grande onda transformativa que está assolando o mundo acadêmico, a economia e as diretrizes do capitalismo futuro, isso eu deixo para os blogs que acompanho pois pessoas de grande gabarito tem explicado as novas tendências e tecnologias em prol do planeta com muito mais propriedade do que eu poderia.
O que sim quero falar é sobre o discurso dos que aproveitam-se do tema para vender idéias sem nenhum conteúdo, deturpadas e que chegam a ter o caráter dos piores tablóides sensacionalistas londrinos: a venda da desinformação!
Nesta semana dois blogueiros que leio com certa frequencia me alertaram para uma constatação por mim vivida: Ricardo Braga Neto (Saci) escreve no Lablogatorios/Tubo de Ensaio, uma ótima crônica http://lablogatorios.com.br/ensaios/2009/01/06/o-matador-de-passarinhos-separando-o-joio-do-alpiste/ entitulada o Matador de Passarinhos onde a síntese fica assim:

"Um exemplo fresquinho vem de uma entrevista na revista Época sobre o pesquisador Alexandre Aleixo, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Ainda que o conteúdo das respostas de Aleixo reflita a experiência e profissionalismo de alguém que é “apenas” o curador da coleção de aves do MPEG, a abordagem da entrevistadora induz o leitor de forma subliminar a se armar contra um absurdo óbvio: estão matando passarinhos indefesos e chamando isso de ciência. A repercussão não foi das menores: a entrevista, publicada em 31/10/08, foi a mais comentada na última semana no site da Época. A Assessoria de Comunicação do MPEG escreveu uma resposta ao editor da revista protestando com toda a razão. Aparentemente, tomando alguns comentários a esse artigo e o posicionamento incisivo da entrevistadora, o público não tem uma idéia clara da realidade de pesquisa básica sobre biodiversidade, seja na Amazônia ou em qualquer outro lugar do mundo."

Outra blogueira que sempre acompanho, a Claudia Chow do Ecodesenvolvimento http://lablogatorios.com.br/ecodesenvolvimento/2009/02/12/%e2%80%9cmercado-mais-verde-requer-profissionais-com-visao-estrategica%e2%80%9d/ escreve um excelente artigo de tema hilário pra não dizer lamentável sobre a requisição de "profissionais verdes", onde o coração do assunto gira em torno disso:
"Na primeira parte da reportagem conta todas as vantagens que tem um profissional preocupado com sustentabilidade e aspectos ambientais e sociais, fala o quanto eles estão na frente dos outros profissionais que não sabem de nada do assunto. Ai na segunda parte mostra uma pesquisa que diz que 70,9% dos processos seletivos não faz perguntas ao candidato sobre sustentabilidade, 59% afirma que é indiferente a participação do candidato em organizações ambientais e 42,4% nem pergunta se os candidatos participam de atividades ou programas sociais. Me diz onde o candidato leva vantagem se ninguém questiona-o sobre o assunto?".
Dois artigos sobre o desserviço prestado pelo jornalismo, com o intuito de embarcar nessa onda de falar sobre a sustentabilidade pra vender notícia e falar asneira.
Estou trabalhando em um projeto pessoal sobre a sucata eletrônica e rastreando os caminhos da mesma no Brasil, que no melhor dos casos, quando não vai pros lixões, é moída e jogada debaixo do tapete (vai pra China, e problema deles). Pra minha felicidade, já que estes temas não estão disponíveis no Google, estava eu semana passada no passando na frente de uma livraria e vi a INFO Exame do mês. Como é uma revista que compro uma vez por ano quando me interessam as tendências da tecnologia, peguei a na mão e comecei a dar uma olhada nos temas. Não é que fiquei louco ao ver o tema inferior esquerdo como chamada da capa?!?! "PLANETA TERRA - Onde vai parar a sucata tecnológica". Não tive dúvidas, vou comprar! Mas nesse impulso de consumir, ainda tive o vago lampejo de "peraí, talvez eu não queira consumir e pagar a revista toda por uma página de assunto...". Não tive dúvidas, procurei a página 42 e lá estavam, pelo que lembro, 5 páginas de foto de folha inteira (talvez uma ou outra com duas fotos dividindo a folha toda) e um pequeno parágrafo explicando a foto. Minha conclusão: caramba, são muito caras-de-pau de colocar uma chamada dessas na capa e mostrar uma reportagem tão pobre, onde o ditado uma imagem vale por mil palavras não ser aplica de modo algum. A reportagem não só não informa quase nada, com nem toca no assunto do real caminho da maior parte da sucata. Dá a impressão que está tudo sob controle e que o problema do lixo eletrônico nem chega a ser um problema, ao ver as coloridas e harmônicas fotos das baterias em pó que viram corantes de tinta conforme o artigo. No site da editora, ainda há um pouco de tom do problema que é, ao citar a IBM guardando por anos 200 toneladas de monitores e as baterias que ainda estão lá à espera de um parceiro que atenda às normas de descarte da multinacional americana.
Então, fica aqui a chamada pros vendedores de informação vazia, vou terminar com a frase da amiga Claudia Chow: "Jornalistas por favor, sejam coerentes e específicos, ajudem a educar as pessoas, de notícias pra enganar bobos estamos cheios e eu prefiro ler fofocas de artistas!"

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Luto Oficial


Foi um choque receber o mail do compadre Sucra com a notícia. Ontem vi a professora Mila, nossa docente de Fisico-Quimica da UFPR, chorando no enterro do filho na Rede Record e na sequência sobre o descaso que á o aparato policial em Itaparica. Passaram as imagens do Abelzinho... não há muito o que dizer. Mais uma pessoa próxima que perde para a guerra civil não declarada que assola o país a muito tempo. Uma estupidez, uma lástima, uma dor. Aos queridos mestre Mila e Abel, meu pedido que seu coração seja poupado de sofrimento. Ao irmaozinho Abel, que em paz descanse.

http://www.salvadorcharters.com/Portfolio%20Abel.htm

"RIO E SALVADOR - O corpo do velejador paranaense radicado na Bahia Abel Harbovsky de Aguilar, de 36 anos, foi sepultado nesta segunda-feira no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Proprietário de uma empresa para aluguel de veleiros, ele estava a bordo do catamarã Pico Alto quando a embarcação foi abordada por dois ladrões. Na tentativa de assalto, Abel, que dormia na proa, levou um tiro no peito e morreu na hora. O corpo ficou nove horas na proa do catamarã até que fosse removido pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT). A polícia prendeu dois suspeitos de terem cometido o crime.

- É uma dor muito grande - disse a mãe da vítima, Mila Aguilar, que mora em Curitiba e acompanhou o enterro.

Parentes e amigos reclamaram da falta de segurança na marina de Ilha de Itaparica. Segundo o comodoro do Aratu Iate Clube, Jorge Nogueira, no ano passado ocorreram pelo menos 15 roubos na marina. A secretária de Turismo de Itaparica, Claudia Gordilho, coordenou ontem uma reunião com comerciantes que foram vítimas de assaltos.

- Queremos sensibilizar o governador para a situação da ilha que não tem delegacia, nem segurança e está com o desenvolvimento travado diante de tanta violência - disse.

No Rio, o escritor João Ubaldo Ribeiro, nascido em Itaparica e com casa na ilha até hoje, fez coro ao protesto:

- Assim como eu, muita gente que é acostumada a ir a Itaparica está sentindo uma consternação enorme, como se perdesse uma pessoa querida. O mundo está desmanchando. Eu culpo o governo pela inação. "

O velho dilema


O Velho dilema do ovo ou da galinha mais uma vez se coloca como entrave para a sustentabilidade dos nossos processos sociais, econômicos e ambientais. Apesar de pessoalmente acreditar que a pompa que gira em torno do discurso do governo acerca do PAC ser uma grande bravata de mídia sem respaldo de ação e verba orçamentária, o Programa de Aceleração do Crescimento tem grande parte de seus pilares baseados em investimento em infra-estrutura, com uma penca de projetos voltados à região norte, o que é extremamente preocupante. Preocupa sim pois estamos falando em cortar várias partes da Amazônia legal por rodovias para escoamento de produtos, o que fatalmente colocará uma grande pressão ambiental não somente no que tange às obras em si, mas todo o "progresso" ligado a isso: operários, agricultores, acesso à floresta pelos desmatadores, etc. Se haverá dinheiro suficiente para que estas obras sigam seu rumo é o grande ponto de interrogação, agravado pela crise financeira e crédito para tal. Mas confesso que ao ler a notícia anexada abaixo, me perguntei duas vezes se o Ministro Minc, ao sugerir aumento de consumo para que não houvesse corte orçamentário em sua pasta, para poder levar a cabo as análises de impacto ambiental desses mesmos projetos do PAC, estava se pronunciando com algum ou total tom de ironia. A pasta do governo ligada ao ambiente incitando o povo a "consumir muito" parece um contra-senso total, ainda mais vindo do ambientalista Minc. É o velho discurso desenvolvimentista que sempre nos dá a frustrante sensação de não termos alternativas para a equação do consumo (de recursos naturais) para geração de riqueza. Mais uma vez, o que se demonstra é a relevância do projeto de crescimento (in)sustentável do governo por não colocar prioridade ao "como" crescer. Não dá mais pra continuar com o discurso do desenvolvimento sem que isso esteja intimamente atrelado à questão ambiental...

"Minc: corte no Orçamento pode ameaçar obras do PAC

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, disse hoje que um corte grande no orçamento de sua pasta pode afetar seriamente o andamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Quanto mais obras, maior a necessidade de licenciamentos e mais gastos temos com deslocamentos pelo Brasil para fazer as avaliações necessárias. Se não tivermos dinheiro, não tem como liberar obras", disse.

Ele disse que, por enquanto, foi anunciado um corte de 10% no orçamento do primeiro trimestre do Ministério do Meio Ambiente, que era de R$ 350 milhões. "Um corte desses dá para ser administrado. Podemos segurar o rojão. Não haverá qualquer comprometimento de projetos. Mas depois vamos torcer para não haver mais corte. Quando eu ouvi que teria que ser cortado 75% quase tive um ataque do coração. Torço para que todos consumam muito para haver aumento na arrecadação, para não precisar haver mais corte", disse Minc em entrevista na inauguração de programa de revitalização ambiental na Ilha do Fundão, no Rio.
"

Fonte MSN Notícias (10-02-2009)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

TVA 4 x 4 Rambo

Email enviado à TVA:

Assunto: Cobrança Injusta, indevida e impasse descabido na negociação

Fui cliente do AJATO no ano de 2006 e início de 2007. Utilizo a banda larga em casa pois esporadicamente trabalho no meu escritório na modalidade "home-office". Por este motivo, a compania a qual trabalho me reembolsa o valor pago pelo serviço de Banda Larga. Obviamente, para que este reembolso exista, é necessário a comprovação via FATURA do serviço, onde constem os dados da empresa, CNPJ, etc, para que a própria compania possa lançar este documento à contabilidade para fins de fisco. Minha relação comercial com o AJATO (TVA) ía bem obrigado até o mês de dezembro de 2006, quando foi efetuado o débito automático na minha conta corrente, mas não me foi enviado via correios a fatura do serviço para esse período. Entrei em contato com a "Central de Relacionamento" da TVA, pedindo o envio da fatura e explicando o porque conforme acabei de comentar acima. A resposta que obtive foi um pedido de desculpas dizendo que a TVA deveria ter tido algum problema na emissão da fatura, mas que no mês seguinte seriam enviadas as duas: a do respectivo mês e esta que não havia chegado às minhas mãos. Em Janeiro, o episódio se repete: débito automático e nada de fatura novamente. Entrei mais uma vez em contato e a mesma resposta: desculpe, mês que vem mandamos a do mês e as duas atrasadas. Avisei que se no próximo mês voltasse a se repetir o evento, retiraria do débito automático a cobrança para que forçasse a emissão da fatura. Nesses dois meses, obviamente não pude solicitar o reembolso do serviço na empresa, e acabei arcando com dois meses por conta própria. No Mês de fevereiro a história se repete e eu finalmente resolvo retirar o débito automático e bastante chateado, passo a usar o serviço da Telefônica (Speedy). Em março, recebo uma chamada do setor de cobrança da TVA dizendo que não foi possível o débito em conta, porém mais uma vez não veio a fatura. A negociação foi por que dia a TVA poderia mandar um motoboy fazer a cobrança em casa e condicionei esse pagamento ao envio em conjunto das 4 faturas. A pessoa que ligou disse que não era do seu setor, que ela não poderia garantir o envio da fatura, e que se eu precisasse de comprovante, poderia imprimir o meu extrato de conta corrente onde apareceria o débito automático (?). Finalmente, disse para esta pessoa que estava cancelando o serviço com a TVA, e a pessoa também com a voz tomada por raiva disse que estaria enviando alguém para retirar os equipamentos de modem na próxima semana, marcando inclusive data e hora. Isso não aconteceu. Não tive mais ligações da Ajato sobre o assunto, nem cobranças, nem faturas, o que para mim já caracterizava o fim do relacionamento comercial.
Para minha surpresa, em outubro desse ano (7 meses após), me é descontado AUTOMATICAMENTE da minha conta um valor da TVA. Me informei com o banco e este disse que eu havia dado a permissão para o desconto, a qual nunca me foi mostrada.
No mês de novembro, chega uma nova fatura de trezentos e poucos reais. Liguei para a TVA sem sucesso de explicação (expliquei para uns 3 atendentes até que mandaram esperar e a ligação caiu). Pensei: não pago nada. Em dezembro, mais uma fatura no valor de duzentos e poucos reais. Ligo no dia 17 de Janeiro para mais uma vez entender as misteriosas faturas de valores variantes, e depois de falar com uns 2 atendentes, me disseram que eram cobranças do período acumulado (?). Expliquei que não havia período acumulado, contando toda a história acima e para minha surpresa, obtive o retorno de que eu não havia cancelado o serviço. Obviamente transtornado com o desserviço e a confusão da informação interna da empresa, reiterei que não havia uso do serviço no período e estes me perguntaram se eu gostaria de cancelá-lo. Minha resposta é que eu já havia cancelado, mas que parecia que o sistema havia perdido essa informação. Eles me falaram que então estariam solicitando o cancelamento. Quanto ao valor cobrado, que esse eu deveria negociar com o setor de cobrança, mas que até às 9:15 da manhã, ninguém estaria no setor (?). Pediram que eu entrasse em contato posteriormente, após esse horário. Que me lembre, enviaram mais uma fatura em Setembro de 2008 num valor próximo de 200 reais.
Por ser assinante da TVA canais a mais de 5 anos, e querer sair do serviço SPEEDY por razões que dariam mais uma novela, verifiquei que teria uma vantagem interessante com o Ajato (preço). Entrei no site e ví que podemos emitir a fatura on-line, o que sanava meu problema inicial o qual (incrivelmente) me levara a cancelar o serviço a 1 ano e 7 meses atrás. Fiz toda a solicitação na central de vendas, e constou que eu possuía uma dívida de 90 reais com o Ajato. Expliquei ao atendente que essa dívida era indevida, e resumi a história. O atendente (Jeferson) me retornou 2 vezes no intervalo de 1 semana e meia, pra dizer que não obtivera nenhuma resposta interna quanto ao meu caso. Nesse meio tempo (nov 08), finalmente recebi uma correspondência da TVA com a cobrança dos 90 reais, dizendo que estavam dando um desconto de natal e coisa e tal. Pior que isso, recém agora com esta comunicação sou avisado que meu nome está no SPC (????). Como realmente estava interessado em REESTABELECER o vínculo comercial com o AJATO (diga-se de passagem que até TVA digital possuo em casa), liguei para a central de atendimento para que se desse baixa dessa pendência que era indevida, ao meu ver, e que pudesse recontratar o serviço. Falei com a Sandra (protocolo 17976388), que me passou para a Cristiane, que me passou para a Milena do setor de cobrança.
A explicação que recebi, resumidamente, é que estes 90 reais são relativos à cobrança do serviço de JANEIRO de 2008, pois eu "cancelei" o serviço (no sistema da TVA) em 17-01-08, e não havia tempo hábil para cancelar o boleto relativo a Janeiro emitido em 19-01-2008 (?).
Após explicar o PORQUÊ eu não estava de acordo com a cobrança dos 90 reais, e contando toda a história, o máximo que a srta. Milena, em conjunto com a sua supervisora puderam me oferecer é um desconto de 10% (9 reais) nessa fatura pendente. Isso segundo a Srta. Milena, era o que o PROCEDIMENTO permitia. Após contra argumentar po 55 minutos com a Srta Milena de que tudo o que eu queria era renovar a assinatura e não pagar uma fatura que obviamente era fruto de uma confusão da informação da minha conta-cliente (ou no jargão CRM) não pelo valor em si, mas pelo fato gerador, não houve acordo. Fiquei frustrado pelo engessamento e falta de bom senso ao negociar essa fatura que já foi de 300, 200, 100 e pouco, 90 e finalmente seria 81 reais, de algo que nem a TVA soube explicar consistentemente o fator gerador. Digo isso porque não foi me dada explicação, já que a TVA diz que eu não havia solicitado o cancelamento do serviço, de porque nos meses posteriores ao meu primeiro cancelamento não foi emitida cobrança, fatura, aviso, enfim, nada que pudesse sugerir um mal-entendido em relação ao rompimento do serviço. Sete meses após é que a TVA "sugere" que se esqueceu de me cobrar???
Quero finalizar pedindo a quem esteja lendo este relato que estou tentando apelar para o bom senso comercial, dizendo que gostaria de assinar novamente o AJATO (e manter a minha assinatura de canais, que já tem mais de 5 anos) e que não estou de acordo em pagar a fatura de 81 reais não por desacordo do valor, mas porque não é justa, é descabida e fere meu entendimento do que é meu direito de consumidor. Não acredito que um impasse tão simples só possa ser resolvido judicialmente, como concordou a srta. no telefone no dia de hoje. Que fique registrado meu apelo e que isto não tenha um final infleiz para transformar-se em case negativo de marketing e relacionamento com o cliente.

Grato

Marcos Nurczyk Iorio
CPF 938298339-20

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Resultado: Três dias depois a Central de Relacionamento me ligou e disse que a dívida não existia mais. Fim da discussão...

domingo, 30 de novembro de 2008

Relatos do Caminho de Santiago - VII

Das memórias do guerreiro amazônico...

A Solidão

... Era meu primeiro dia sem a Isabel. Havíamos passado momentos mágicos todos os seis dias anteriores como já contei. Para mim era um dia importante porque eu também queria começar a colocar a prova o meu ser. Andar sozinho significava um grau mais intenso de introspecção. Eu começava a pensar que o resto do trajeto até Santiago de Compostela seria assim. Ao início, eu estava ansioso para saber como me comportaria comigo, pois finalmente começaria a confrontar minha verdade absoluta e companheira por tanto tempo: a solidão. Ela não chegou prontamente, é verdade. Veio chegando sem que eu me desse conta. Aquele dia a Najera significou o maior desafio físico de todo o Caminho. Era mais difícil, ao estar sozinho, entreter-se mentalmente para amenizar a distância até a próxima vila. Lá pelas duas da tarde, parei nesse pequeno povoado chamado Ventosa, pois os meus pés simplesmente não aguentavam mais. Sentei num banquinho público deserto, tirei meus calçados e comecei a cuidadosamente massagear os meus pés. Com carinho, esfreguei os paliativos: cataflan, vic-vaporub e vaselina. Dediquei uns bons 20 minutos para descansar, e foi difícil decidir retomar a caminhada. Começou a passar pela minha cabeça dormir por ali mesmo, nesse povoado. Com muito custo decidi seguir em frente, e foi dessa vez que percebi que para pés cansados, parar um pouco é pior do que continuar. Enquanto eu passava o tempo tirando uma foto e outra, conversando com a minha sombra, comecei a tentar imaginar como estaria sendo aquele momento se estivesse acompanhado pela Isabel. Conclui que provavelmente estaria rindo, conversando, ou simplesmente contemplando-a. Mas agora eu estava só. Eu não tinha medo de estar a sós. Me dei conta que eu já conhecia suficientemente a dinâmica do Caminho. Já não tinha medo do desconhecido entre as etapas. Já sabia qual seria a minha rotina pelos próximos 22 dias se o meu corpo permitisse. Mas depois de 6 dias caminhando, e finalmente sem a Isabel, eu não conhecia ninguém. Possuía apenas frágeis enlaces com rostos familiares aos quais nos desejávamos reciprocamente "Buen Camino" quando nos cruzávamos. E naquele terreno onde eu já me sentia com certo domínio, percebi que eu estava desamparado. Essa sensação de desamparo foi o aviso que a solidão já estava caminhando comigo. E num piscar de olhos, me dei conta que essa sensação de desamparo era a essência da minha solidão em São Paulo. Uma cidade com 19 milhões de habitantes, e eu me sentia só a maior parte do tempo. Me sentia entretido durante as minhas horas de labuta, mas nos dias onde não sabia como passar o tempo, a solidão realmente assolava minha alma. E esses eram os dias que eu me sentia menos feliz. Nesse jogo de perguntas sem resposta que o intelecto desafia, percebi que esta solidão, tão antiga companheira, estivera comigo em tantos momentos que teoricamente eu não estava a sós. Sim, porque lembrei de tantos momentos nos quais também me sentia sozinho na cidade onde meus amigos se encontravam. Me senti só enquanto fui casado, me sentia a sós a muito tempo, e isso me consumia uma grande quantidade de esforços para me manter feliz. Eu perguntava ao Camino, o que eu deveria fazer para não viver nestes altibaixos da felicidade: horas exultante em extrema glória à vida, horas tão próximo da depressão...
Logo depois de sair desse pequeno povoado, entrei numa trilha do Camino que margeava uma rodovia de bastante movimento. A trilha por onde eu caminhava estava distante uns bons 10 metros da autopista, separada por uma mureta de concreto e um alambrado acima desta, mas mesmo assim, o tráfego de caminhões e carros era intenso. Isso é um grande incômodo para o introspectivo peregrino. O ruído dos motores e aço, e a própria velocidade com que os veículos passam perturbam a idéia de tranquilidade a qual cada uma já está acostumado. Nesse momento, eu já havia recorrido ao IPOD às minhas orelhas, enquanto ouvia uma psicodélica canção do Pink FLoyd. Meus olhos poupei ao olhar para a esquerda, desviando-os da autopista e buscando do outro lado, flores e plantinhas. Já estava absorto com a música e plantas à minha esquerda, quando tive a impressão que alguém estaria me ultrapassando pela direita. Era a sensação de não ter percebido um peregrino chegar ao meu andar e de repente alguém já estava passando ao meu lado. Nesse mesmo segundo (sim, tudo o que me aconteceu a seguir demorou apenas segundos), senti dessa "presença" como que um aviso despreocupado. Como se estivesse dizendo dentro dos meus pensamentos : "olhe isso!". Não estou dizendo que ouvi uma voz, nem nada do tipo. Foi somente uma sensação de alguém à minha direita querendo mostrar-me alguma coisa. Poderia até dizer que senti um pequeno tapinha no meu ombro. Instantaneamente, quando rompi minha linha de absorção a qual estava compenetrado, comecei a lentamente mover meu olhar para a direita. Como que em câmara lenta, meus olhos cruzaram o caminho à minha frente, e seguiram em direção à autopista. Por alguma razão que não explico, meus olhos se fixaram diretamente em um caminhão que vinha em minha direção a uns 500 metros de distância. Era mais um caminhão entre os outros. Somente se destacava a sua carreta azul, pois mal podia ver o resto por cima da mureta já que este estava ainda um tanto distante. Passaram outros dois caminhões ao meu lado e meus olhos continuavam acompanhando esta carreta azul, enquanto minhas pernas e bastão continuavam me levando em frente. Foi quando o caminhão já começava a cruzar-me que não quis acreditar nos meus olhos. Comecei a rir sozinho maravilhado. Em sua carreta azul, escrito em letras garrafais aparecia: IORIO, meu tão raro sobrenome italiano. Eu ainda estava sorrindo perplexo enquanto esfregava minha vista como nos desenhos animados para ter certeza que estava escrito IORIO, quando me ocorreu tirar uma foto. Minha mão dirigiu-se automaticamente ao estojo da minha câmera que carrego sempre no meu cinto, mas percebi que não teria tempo suficiente para ligá-la, armá-la e tirar a foto. Não era necessário. Essa mensagem era somente para mim.
Quando não era mais possível ver o caminhão, eu ainda sorrindo falei em voz alta: "Obrigado".
Foi desde então que me dei conta que nunca estive sozinho, e que nunca mais assim me sentiria. Minha solidão crônica estava curada. Apenas me foi providenciado um pequeno detalhe para que tudo fizesse sentido, e para que esta pequena lembrança fosse por mim invocada quando a solidão silenciosamente estivesse chegando...

Namaste

Marcos
vosso humilde narrador.

sábado, 29 de novembro de 2008

Uma vela para Luzia


Fazia tempo que eu não via algumas pessoas do escritório. As meninas insistiram que eu deveria ir ao happy hour que elas estavam marcando pra quinta-feira, pois o Fernando Agostinho, este irmão que a vida me trouxe, também estaria por lá. Eu tinha outro compromisso com a minha amiga Ana Carolina, que estava de passagem por São Paulo rumo a Paris, onde provavelmente ela passaria os próximos dois anos estudando em um conservatório de bairro, canto erudito. Acabamos remarcando de encontrar-nos na sexta. Perfeito: poderia ir ver todas as pessoas que eu estava a fim sem ter que optar por nada.
Como manda o figurino, o happy hour seria depois do expediente, perto das 18:00. Marcaram num lugar chamado Botequinho, que ficava a uns 9 Km de casa. Esse é um horário péssimo pra se andar de carro em São Paulo, e como eu partiria de casa, somado ao fato da campanha dos bafômetros, achei que seria arriscado sair com o carro da compania nessas circunstâncias. Então, nada mais ecológico e saudável do que meu transporte preferido: minha bike! Como ela acabava de voltar da revisão, com câmbio novo e rodas alinhadas, confesso que estava louco pra sentir esse pedalar ideal, sem problemas de trocas de marcha, sem ruídos, enfim, nas melhores condições mecânicas que aquela magrela poderia me oferecer. Preparei toda minha habitual indumentália: máquina fotográfica, acessórios, mochila, água, capacete e alforge. Parece um exagero, mas como estes itens não pesam, também não os considero "excessos". Só não encontrei uma das minhas luvas. Já estavam acabadinhas mesmo, e ao sair pedalando do condomínio às 17:45, pensei que poderia pedalar até a loja da Decathlon e comprar um par de luvas novo. Foi o que eu fiz. Cruzei todo aquele infernal trânsito da Marginal Pinheiros, pensando até como me sentia mais seguro de andar no meio do trânsito paulistano. Afinal, a lei é clara: os veículos devem manter 1,5 m de distância do ciclista. Meu espaço estava garantido por lei. Isso não quer dizer que ele seja respeitado, até porque 99% dos motoristas nem sabem da existência da lei. Mas conhecer a lei acaba somando algo à autoconfiança de estar no meio das enlouquecidas vias do trânsito desta megalópolis. Finalmente, saltos, curvas e derrapagens controladas após 10 Km, comprei meu par de luvas e terminei minha primeira etapa do trajeto.
Pedalei outros 5 ou 6 Km até o Botequinho. Todos vestidos no mais tradicional "office wear", elegantemente com paletós ou não, e eu de bandana, capacete e mochila. Cerveja e petiscos, conversas sobre o Caminho de Santiago e o climão na empresa, e achei que já era hora de zarpar. Não é bom abusar da segurança... a noite já se fazia presente. Enquanto o pessoal ia por seus carros, me despedi soltando o cadeado da bike no poste. Liguei os acessórios de segurança e saí sentindo a liberdade do vento no rosto enquanto meus músculos faziam o limpo trabalho de me levar adiante... como adoro pedalar!
Entrei na avenida Santo Amaro, e já caí no começo da João Dias. Às 21:30 já não eram tantos os carros na rua, mas isso significa que os poucos tem liberdade pra pisar o acelerador, e pro ciclista, atenção redobrada. A João Dias tem uma topografia levemente em descida, o que permite um pedalar suave mas com certa velocidade e eu já estava a uns 30 Km/h. Vinha pelo meu 1/3 da faixa da direita, cuidando dos automóveis atrás, quando este ônibus passou da faixa esquerda para a minha e foi me apertando ao mesmo tempo que me ultrapassava. Isso me obrigou a passar para a calçada, uns 20 metros antes de chegar a uma esquina. Eu já vinha apertando os freios nesse movimento, quando me dei conta que o ônibus que me obrigara a sair da rua, simplesmente começou a virar a esquina saindo da avenida. Não quis acreditar que ele estava fazendo isso sem sinal. Eu não tinha espaço suficiente pra frear com segurança. Quando já estava na esquina , o ônibus já tinha avançado um terço do seu tamanho fazendo a curva. Se eu não parasse já, daria de frente com ele bem na sua metade. Foi quando cravei os freios da magrela, e a traseira levantou fazendo a típica catapulta que eu já houvera experimentado outras vezes. Não dei de cara no ônibus, que continuava em movimento, porque consegui virar o corpo de lado e segurar com a mão esquerda contra o ônibus. Caí ali mesmo batendo o joelho fortemente contra o chão. Naquele segundo pensei que o acidente já havia se concretizado. Com as escoriações que ganhei e o joelho inchado, já seria suficiente para pensar o suficiente. Mas a cena ainda não acabara. Eu já estava no chão, mas o ônibus ainda não terminara de fazer a curva. E no seu movimento normal, as rodas de trás foram fechando. Meus olhos calcularam em milésimos de segundo pra onde iriam aquelas quatro rodas de eixo duplo traseiro, e gritei internamente: "Não, minhas pernas não!!!". Desesperado mas já sem poder fazer nada, vi a meio metro da minha cabeça, aquele par de rodas subindo e descendo cada uma das minhas pernas. As rodas passando a poucos centímetros abaixo do meu joelho foram uma cena muito forte. Meu cérebro apenas interpretou uma possibilidade com o tamanho do veículo naquela situação: as pernas estavam sendo esmagadas. E mesmo negando aquele cruel destino, aceitei a condenação. Meio segundo após, o ônibus terminava de fazer o seu doloroso trajeto e passava do meu alcance. Segurei com muita força minha vontade de urrar. Me passou pela cabeça gritar o mais alto que pudesse, mas essa vontade veio junto com uma necessidade imediata e intelectual de controlar a dor lancinante. Pensei em seguida sobre a inundação bioquímica que tomaria conta das minhas células, e entrei num frenético exercício de respiração para poder suportar o momento. Foi como o exercício respiratório do parto. Minhas pernas estavam inundadas por ondas de dor lancinante, e eu continuava respondendo a elas deitado na rua e respirando freneticamente.
No meio daquele yoga sem estilo algum, um rapaz me avistou e enquanto levantava minha bicicleta, perguntou se eu tinha caído. Respondi que sim, e que além disso o ônibus passara por cima das minhas pernas. Ele não queria acreditar e me perguntou se eu tinha certeza. Eu ainda estava no exercício respiratório tentando controlar a dor.
- "Qual ônibus? Ele não parou?", perguntou o rapaz.
- "Não parou não!", respondi.
Virei minha cabeça para o lado enquanto deitado no chão e vi que a uns 20 metros, dois ônibus estavam parados enquanto as pessoas desciam num ponto. Olhei a placa, que parecia ser AKG ou AGQ, mas me passou pela cabeça que não teria certeza qual dos dois teria me atropelado, e voltei minha atenção para as pernas. Olhei para a calçada e vi um grupo de 3 meninas, aparentemente estudantes, olhando para mim enquanto o rapaz explicava que o ônibus tinha passado por cima das minhas pernas. O rapaz pediu pra que eu permanecesse sem me mover, deitado. Uma das meninas me perguntou se eu queria que ela retirasse minha mochila das costas, eu disse com a voz dolorida que não. Ela prontamente começou a chamar o serviço de paramédicos através do celular, descrevendo a cena, endereço e as informações de praxe. Olhei para o céu, e de novo para minhas pernas. Não queria acreditar no ocorrido. Uns cinco minutos haviam se passado, e eu começava a dominar a dor preliminar. A quantidade de adrenalina já havia feito seu trabalho, e agora, tentei mexer meus pés com sucesso. Verifiquei as pernas com minhas mãos já me sentando, e ví que os ossos pareciam seguir seu desenho natural. Senti que minhas pernas continuavam fisicamente integras. Me concentrei, canalizei as forças, e um segundo depois, eu estava de pé. O rapaz pediu pra que eu continuasse no chão, e eu respondi que acreditava estar bem. Escutei a menina narrar pelo celular que eu estava ficando de pé, e pedi pra ela cancelar a chamada. Ela me obedeceu, e logo depois de desligar o celular, perguntou se estava bem. Ao meu consentimento, as três foram partindo. O rapaz me ajudou com a bicicleta, e certificou-se que eu estava bem. Durante a minha retomada de consciência, se me ocorreu agradecê-lo, e perguntei seu nome:
- "Gabriel", respondeu sorrindo.
- Gabriel... o arcanjo... cara, muito obrigado mesmo. Você tava aqui pra me socorrer...
- Não foi nada. E você... como é teu nome?
- "Marcos", respondi."Mais uma vez, muito obrigado Gabriel!"
- Vai com cuidado...
- Pode deixar. Vou devagarzinho agora...
Montei na magrela e saí pianinho. Minhas pernas doíam muito. Pensei se deveria ou não chamar meu pai ou a Gisele, minha amiga que estava no bar e morava perto de casa, mas achei que se eu pudesse pedalar, economizaria um momento precioso até que não pudesse mais seguir em frente. Saí pedalando, nas marchas leves, sentindo e controlando a dor nas pernas. Percorri os 7 ou 8 Km que me distanciavam de casa.
Finalmente estava na frente de casa. Não queria impressionar meus pais. Calmamente guardei a bicicleta, entrei em casa, dei um "oi pai" enquanto ele assistia TV na sala, e falei:
- Vou tomar uma ducha.
- "Tomaram todas?" perguntou ele sem olhar pra mim.
- Não muito...
Vi que a minha mãe assistia novela no meu quarto e falei da porta do banheiro sem vê-la:
- "Oi mãe", e me fechei lá dentro, lembrando de quando meu irmão quebrou o braço aos 12 anos de idade e se trancou no banheiro pra não ser flagrado pela travessura.
Sentei na privada, tentei tirar a calça rasgada de lycra para ciclismo sem encostar nos meus cortes, que sangravam e ardiam muito. Tentei por dois minutos abrir o zíper da perna da calça, e conclui que como não a usaria mais, não havia problema rasgá-la. Me senti meu próprio paramédico ao fazê-lo. Entrei na ducha e os primeiros filetes de água a percorrerem por cima dos raspões em sangue inevitavelmente trazem aquelas recordações da infância: como ardem os machucados!!!
Olhei pra perna e achei que o inchaço que ela apresentava poderia ser por alguma hemorragia. Lembrei quando a dois anos atrás, rompi os ligamentos do pé esquerdo, tirei uma foto nas horas seguintes e procurei um ortopedista três meses depois. Quando mostrei para o ortopedista a foto perguntando se haveria maneira de recuperar o ligamento, ele olhou pra mim em tom irônico e respondeu:
-Se você tivesse procurado um médico no momento em que tirou a foto, sim. Agora não dá pra fazer mais nada.
Serviu de lição. Na dúvida, vou procurar o pronto-socorro, decidi. Terminei a ducha de 5 minutos e ainda sangrando saí do banho. Tentando manter toda a situação sem alarmes para meus pais, vi que não estava sendo 100% feliz ao ver uma gota de sangue manchar a toalhinha de chão do banheiro. Não havia mais tempo a perder. Me sequei como pude, manchando a toalha de sangue. Coloquei todos os meus apetrechos (meias ensanguentadas, calças rasgadas, luvas rasgadas) dentro do meu capacete, saí do banho e escondí no escritório. Guardei a toalha no banheiro do meu quarto, e sem alarde peguei roupas no meu armário tranquilamente, enquanto minha mãe ainda assistia a novela de luzes apagadas (ufa!). Me vesti e desci dolorosamente as escadas. Peguei meus documentos, carteirinha do plano de saúde, as chaves do carro e falei pro meu pai:
- Já volto...
Dirigi até o Hospital São Luiz, no Morumbi, a uns 15 Km de casa. Cheguei à recepção, mas vi que não tinha condições de ficar em pé. Rapidamente, me colocaram numa cadeira de rodas e só respondi quando me perguntara o que eu tinha:
- Um ônibus passou por cima das minhas pernas.
Me levaram pra emergência, anunciando politrauma. Eu ocupava um dos três leitos disponíveis enquanto. Não consegui ver por causa das cortinas, de quem se tratava, mas escutei um senhor a dois leitos de distância, sendo atendido devido a sua alta pressão. Fui logo atendido pelo enfermeiro Marcio, e logo em seguida, pela Dra.Marta. Contei do incidente, e ela disse que chamaria um ortopedista pra me checar. O Dr. Frank apareceu uns 15 minutos depois, e contei a ladainha de novo. Meu estado físico não condizia tanto com a incrível história. Imediatamente ele pediu raios X de tudo, dos pés a cabeça, passando pela cervical, joelhos, enfim, uns 10 ou 12 exames. Duas doloridas e longas horas se passaram até que me levaram para a sala de raio X. Nesse meio tempo, escutei uma pessoa descrevendo a situação de um novo paciente que estava colado ao meu leito, mas que também não podia ver devido às cortinas que nos separavam. Esta pessoa havia chegado com pneumonia. Parecia ja ter sido internada. Sua glicose estava em 241, mas ela não era diabética. Foram descritos outros procedimentos que haviam sido levados a cabo. Em nenhum momento ouvi a paciente falar. Sua acompanhante deu todo o descritivo e parecia apreensiva, como esperando providências imediatas. O enfermeiro disse que a entubação já havia sido feita, e que estava tudo sob controle. Comecei a me perguntar se seria uma pessoa jovem ou idosa, ou até uma criança que enfrentava aquela situação. Não ouvi mais conversa depois de toda aquela movimentação inicial. Só ouvia um peito com muita dificuldade de respirar. A respiração carregada parecia ser uma batalha a cada inspiração. Me pareceu que a pessoa ao lado estava numa situação frágil, e que a qualquer momento algo sairia de controle. Exercitei muito minhas exotéricas crenças, e tentei emanar todas as possíveis boas reservas de cura que haviam me restado depois da minha experiência pessoal naquela noite. Fiquei com uma vontade tremenda de me levantar e ir até o leito ao lado para impostar minhas mãos a essa pessoa. Mas eu não estava em condições de sair da cama. Ainda sentia muita dor nas pernas. Finalmente, o enfermeiro Marcio começou a conduzir minha maca para o raio X. Perguntei acerca da pessoa que estava a meu lado na emergência. Enquanto me sentia um top model na sessão interminável de fotos de raio-X, meu celular soou sem que eu pudesse alcançá-lo. Pensei:
- Caraca, mãe sempre sabe quando tem algo errado.
O telefone tocou até emudecer. Terminando a sessão dos Raios X, o radiólogo levou minha maca até a tomografia e lá fiquei sozinho por uns dez minutos. Tentei alcançar meu celular, que estava na parte de baixo da cama que eu ocupava. Mas fazer aquilo com aquele imobilizador no pescoço que havia ganhado assim que entrei na politrauma, era quase ridículo. Percebi que o enfermeiro acabava de entrar no quarto e disfarcei sem sucesso.
- Impressão minha ou você estava se contorcendo? Não pode fazer isso...
- É, tava tentando pegar meu celular aqui embaixo. Acho que minha mãe ligou. Não queria deixá-la preocupada...
- "Deixa eu pegar pra você...
- Pois é, não tem sinal aqui na sala...
- Sei de um canto que pega...
E lá saímos procurando o sinal do maldito celular pelo hospital. Nada feito.
- "Deixa pra lá". Falei
- Eu vou conseguir um ramal pra você. Fica tranquilo.
Ele me passou um telefone sem fio depois de discar pra casa. Minha mãe atendeu:
- Mãe, você ligou né? Pois é, fiquei sem bateria. Então tou ligando pra dizer que tpa tudo bem e que eu já tô chegando... tá bom? Então beijo... tchau.
- "Ué, já falou?" me perguntou o Marcio enquanto recebia o aparelho. "Mas você não falou nada pra sua mãe!?"
- Falei o que ela precisava ouvir. Às vezes temos que ser realmente práticos. E deixá-la preocupada com as mãos atadas seria sádico da minha parte, não acha?
- "Tem razão!", respondeu rindo.
Voltamos pra sala de emergência. O Marcio me contou das novidades:
- Acabamos de receber um colega seu...
Olhei com uma interrogação no rosto
- Colega?
- É, se acidentou de moto...
- Ui, e ele tá bem?
- Tá, foi que nem você. Ainda passou em casa, tomou um banho, e veio pra cá. Só que ele veio acompanhado da mãe.
- É... bom, eu deixei a minha em casa.
Ao meu lado, de tempos em tempos escutava um alarme soando com a paciente da pneumonia, e voltei a ficar sentido por aquela alma. Foi quando ouvi novamente a sua acompanhante se dirigindo a ela:
- Calma querida, tá tudo bem, se acalme. Se acalme que você está no colinho de Jesus, tá bom?
De novo comecei a mentalizar todas as minhas crenças sobre manipulação de campos e as coisas que a quântica me permitiriam fazer para transferir energias pra que ela se recuperasse e realmente estivesse protegida. Entraram uns médicos perguntando pelo Jonatas, que deveria ser o acidentado de moto. E começaram uma sessão perguntas que foram respondidas pela sua mãe. Mas lembrem que eu nada podia ver, apenas ouvir e imaginar, separado pelas cortinas ambulatoriais...
Finalmente, depois de 3 horas, o ortopedista, Dr. Frank apareceu novamente, e me disse:
- Você é um perna dura!
- Porque?
- Nenhum osso quebrado. Você teve muita sorte!
- Minha preocupação é vascular... será que não esmaguei nada do sistema circulatório? Trombose? Flebites?
- Não, pelo teu quadro tá tudo ok. Só que vai doer. Vai aparecer hematoma e é bom você naõ andar por uma semana, ou pelo menos, o mínimo possível. Precisa de atestado?
- Não, por sorte, tô de férias...
- Bom da minha parte então você tá liberado. Vou passar uns remedinhos e um antinflamatório injetável. Você prefere intravenoso ou intramuscular?
- Qual dói menos?
- Bom, os dois são só uma picadinha.
- Bom eu ainda tenho que voltar dirigindo...
- Você não trouxe acompanhante?
- Não...!!
- Ué, veio sozinho?
- É! Eu pedalei até em casa... dirigir foi fácil.
- Bom, nenhum dos dois vai te dar sono, então não tem problema pra dirigir...
- Então me dá os dois!
- Cada louco... vou te mandar o intramuscular. Bom qualquer sinal estranho você volta procurar a gente...
- Tá bom, obrigado Dr Frank, bom trabalho!
- Boa recuperação.
Depois da injeção, e curativos, finalmente recebi a alta da Dra.Marta, a primeira a me atender. Estava pra ir embora quando chegou um outro enfermeiro, Robson, de cabelo engraçado. Ele iria substituir o Marcio durante sua hora de janta. Me despedi do MArcio, e quando ensaiava minha passagem para a cadeira de rodas, o novo enfermeiro Robson me perguntou:
- Que aconteceu com você?
- Ah, um ônibus passou por cima das minhas pernas!
- Tá brincando? Meu Deus! E tá tudo bem? Puxa você viu a morte de perto hoje!!!
- É... parece que sim.
- E quem tá te esperando?
- Ninguém, eu vim sozinho...
- Sozinho??? Mas eu não posso deixar vocÊ sair sozinho nesse estado! Você vai ter que chamar alguém!
- Não... eu já recebi alta. Eu já tava indo embora... meus dois médicos disseram que eu posso ir embora...
- Sim, mas não sozinho!
- Sozinho sim... eu pedalei 7 Km e dirigi até aqui... agora o pior já passou. Vai por mim. Eu tou em condições de dirigir...
- Olha, me desculpa. Eu não quero ser chato, mas eu tenho que consultar minha superiora.
- Tá bom..
E já comecei a pensar no transtorno que seria, depois de tudo, chamar meus pais ao hospital Às 3 da manhã. Volta o Robson:
- Não é que eu queira ser chato, mas me entenda, quem vai assinar a tua saída sou eu. Então sabe como é, é responsabilidade do hospital, dos doutores que te atenderam, mas se acontecer alguma coisa com vocÊ, é o meu nome que vai estar na liberação, então eu tenho que me precaver!
- Não tem problema Robson, eu entendo. Mas eu te juro que me sinto bem...
- Então você diria isso pra minha chefe?
- (risos) Claro... até pro Papa eu confirmo a história.
Bem nesse momento, abre-se a porta da emergência e entra uma médica, uma loira muito bonita com o nome Carla no crachá, aparentando uns trinta e poucos anos... meu tamanho...
- Nossa que coincidência, essa é a minha chefa - emendou o Robson - Chefa, esse é o rapaz que eu comentei no telefone...
Ela me olhou e perguntou:
- Você não chegou comigo?
- "Cheguei?", respondi.
- É, você não chegou comigo hoje?
Fiquei confuso com a pergunta dela, mas não tive dúvidas em continuar:
- Olha Carla, eu não lembro se cheguei com você hoje, mas adoraria ir embora contigo se eu pudesse!
Ela não pareceu ficar sem graça, mas o enfermeiro ficou, e eu ri esperando o resultado daquela conversa confusa que recém se iniciava:
- Você não tava acompanhado com a tua mãe? Você não entrou hoje às 7 por moto?
- Mmmm, não. Eu entrei as 10 por bicicleta... sou humilde. O da moto é dois leitos pra frente... é o Jonatas!
- Nossa, mas vocês são superparecidos...
- Já é a segunda pessoa que nos confunde. Não tem problema...
- Ah bom... achei que tava ficando louca. Deixa eu ver. Fica de pé pra eu ver teu equilíbrio...
- Claro!
Me concentrei pra não passar nenhuma má impressão, mas a verdade é que doía muito ficar de pé. Passei no exame. Todos de acordo com minha alta novamente. Sentei na cadeira de rodas com o pedido de desculpas do Robson.
- Não tem problema não meu querido. Só vou te pedir um favor antes de você me empurrar até o estacionamento...
- Pois não!
- Me leve até aqui ao lado que eu preciso fazer uma coisa...
- Tá bom..
Minha primeira parada foi no leito ao lado. A acompanhante daquela frágil senhora inconsciente e entubada me olhou com a indiferença de alguém que apenas passaria por ali. Mas pedi para o Robson me parar enfrente à senhora. Olhei por alguns segundos e mentalizei a cura. Olhei pra senhora que a acompanhava e perguntei:
- Dona Luzia é o nome dela não?
A senhora um pouco sem graça, mas sorrindo respondeu de pronto:
- É sim...
- Puxa, ela tá com 88 anos, né? E a respiração tá difícil né?
- É... nossa, como você sabe?
- Ah, somos companheiros de quarto... nossa heroína está em boas mãos... não se preocupe...
- Puxa... muito obrigado... que gentil da sua parte...
- "Não se preocupe menina... tem um exército cuidando de você!", disse me dirigindo pra dona Luzia."Agora quero conhecer meu clone Robson", e fomos pro próximo leito."Você deve ser o Johnatas..."
E um rapaz com o cabelo rapado como o meu, mas com braços e peito tatuados respondeu sorrindo:
- Eu mesmo
- Johnatas Vasconcelos, do acidente de moto...
- Nossa, como você sabe tudo isso? Respondeu sua mãe com os olhos arregalados
- "É que somos companheiros de quarto", respondi. "E aí, se arrebentou?"
- Não, eu tou bem! (risos) E você, também foi moto?
- Não, sou mais simplão... o meu foi bicileta...
- Ah, bom...
- É, mas ônibus passou por cima das minhas pernas...
- O quê? (sentando na cama e procurando ver se minhas pernas estavam lá)
- Mas eu tou bem... bom, só passei aqui pra te desejar boa recuperação e que você tome cuidado com as duas rodas...
- Puxa, obrigado... boa recuperação pra você também!
- Tá bom, té mais. Fiquem com Deus... Namaste! Robson, última paradinha na Dona Luzia...
- Tá bom...
Chamei a acompanhante da Dona Luzia, que deveria ser sua filha, e lhe disse:
- Não se preocupe, ela está em boas mãos... chegando em casa, eu acendo uma velinha por ela, tá bom?
- Puxa, muito obrigado... que Deus te proteja!
- A todos... Namaste!
Saí da emergência com as palavras do Robson:
- Nossa, como você é bonzinho!!! Você tem uma presença muito boa!!! Deus seguramente tá com você menino!!!
- Somos um exército Robson... somos o exército que mantém a coisa equilibrada... Namaste.