Fazia tempo que eu não me metia em uma viagem diferente. Quando a Cris me convidou lá na SOS Mata Atlântica para ir à sua casa no feriado de Corpus Christi, confesso que não me embalei de cara. Tinha planos de ir pra Curitiba, até que a Cris mandou um mail com o título "Não é pra principiantes", com uma foto anexada. Opa, deixa eu ver isso direito. Uma casa que parecia de fazenda, com ares de refúgio num vale de montanha a 1.700 m de altitude, encravada na zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra da Bocaina Bocaina, parece bom.
Entre a corrente de mails pra ver quem vai, quem desiste, quem fica, sobramos quatro. Reunião de planejamento três dias antes da saída, cardápio, viveres, logística. A logística me deixou mais animado:
- 280 Km de carro até São José do Barreiro - SP
- 4 horas na caçamba de uma Rural, adentrando ao Parque serra acima
- 2 horas de mula, subindo e descendo a montanha, pelo meio da Mata Atlântica

Comida? Tem forno a lenha, como as tradicionais fazendas paulistas do ciclo do café
Banho? O forno a lenha esquentando uma serpentina com água de montanha
Precisa pensar mais? Não, tou nessa duas vezes.

Saímos na quinta às 4 e meia da matina, com mochilas e recursos pra passarmos bem. Três horas de carro pela Ayrton Senna, passando Aparecida do Norte, entrando em Queluz e estrada secundária adentro, com suas curvas serpenteando campos de altitude. A região tem o dna da própria história da colonização do Brasil. Região de caça e coleta originariamente habitada pelos índios guaianás, tamoios e tupinambás, recebe o nome do Tupi-Guarani Bocaina, que provavelmente significa "depressão numa serra". As trilhas abertas pelos nativos serviram de acesso morro acima, partindo-se de Paraty, passando por Cunha (ambos no RJ), e funcionaram como trilha alternativa para os ouros que vinham das Minas Gerais, a fim de fugir dos impostos cobrados pela corte portuguesa (o quinto). No século XVII, descendo a serra da Mantiqueira o capitão Fortunato Pereira Leite e seu cunhado João Ferreira de Souza se detiveram com um atoleiro brabo. Ali fundaram um arraial onde, em 1820, foi erguida uma capela dedicada a São José, passando o povoado a ser conhecido como São José do Barreiro. Após o ciclo do ouro, sucede a cana, a cachaça, o peixe e a banana no litoral. Subindo pelas encostas do Vale do Paraíba, as roças de subsistência, o ciclo do café, depois o leite, e por fim o carvão.
Pelos idos da década de 30, se instalava nessa região Adolfo Lutz (1855-1940),
Ao chegarmos a São José do Barreiro, fomos procurar o off-road que iria nos levar para lá, uma Toyota Rural 4x4 (sem isso não dá) e nosso piloto Selviano Antonio Massarente. Seu Selviano formou-se em 54 como Técnico Agrícola e operado de máquina agrícola pesada. Nos tempos de JK, dentre seus vários trabalhos em épocas "desenvolvimentistas", operou o maquinário para a derrubada da mata na Bahia, onde a Odebrecht criava obras a seu próprio mando, quando o coronelismo acobertava uma simbiose aceitável para as épocas. Conta seu Selviano que ele mesmo executou a derrubada de mata para plantio de seringueiras na Bahia naquela época. Em 1964, ele troca a devastação pela Serra da Bocaina, já como servidor público, e troca a devastação pela admiração e preservação da natureza. Ele acompanhou de antemão os trabalhos de demarcação, levando os técnicos para aquela área de mata que viria a tornar-se Parque Nacional 3 anos após.
Após o último ciclo, em 1971 os militares oficializam a concepção do Parque
Nacional da Serra da Bocaina, por questões de segurança nacional: a proibição de população e a serra como um grande muro foram idealizados como proteção a um possível acidente nuclear com as usinas Angra I e II, localizadas em Angra dos Reis. O Brasil ganhou assim a maior unidade de conservação da Mata Atlântica do país.
O último ciclo, o do carvão, alimentou os fornos da CSN em Volta Redonda, e foi o mote que trouxe o atrativo econômico à família Moutella instalar a casa onde nos refugiamos. Lá pelos idos de 48, Seu Ademar Soares Costa possuía morada e comércio na cidade, e produção de carvão na Serra.


Embarcamos na Toyota do Seu Selviano, numa estrada que foi ficando cada vez mais fechada, sentindo o frio com neblina da montanha, atravessando riachos e discutindo quais seriam as vocações econômicas daquele povo: qual seria o próximo ciclo a salvar a cidade de 5.000 habitantes? Ecoturismo? Exploração sustentável da biodiversidade? Enquanto discutíamos, nossa corpo sentia na pele o que quer dizer mata ombrófila (que gosta de água) densa de altitude... que frioooo (brrrrrr!!!).
Após passarmos pela garita de entrada do Parque Nacional, onde foram checadas nossas permissões, chegamos à casa do caseiro Cesar, responsável pela Fazenda dos Lutz. Na pequena casinha encravada numa clareira da mata, uma placa anuncia: Fazenda Capão Bonito do Rio de Baixo.
Preparamos o burrinho que levaria nossas coisas, o Moleque,
E lá estava eu cavalgando a Laura, por uma trilha enlameada pelo meio da mata. Enquanto conversava com o Cesar pra entender o que era viver ali e um pouco das histórias da região, meus olhos se deslumbravam com os mirantes que se abriam entre nossa conversa.
Nossa casa perfeita pra um fim de semana em contato com a mata: Fogão a lenha, água quente pro banho, água de nascentes, colchão e os principais atrativos: muito espaço pra pernear e fotografar, e nada de energia elétrica!!!

Nos dias que passamos lá, além da paz de espírito e a plenitude do isolamento, a mata nos deu muitos presentes. Talvez o mais simbólico para o grupo foi o ballet de um Tyrannus savana (tesoura), que apareceu dois dias seguidos, ao final da tarde, numa dança aérea de 5 minutos bem à frente do umbral da casa, antes de retirar-se para dormir na mata. Como eramos os únicos a presenciar aquele presente, sentimos nos todos interligados e agraciados por ter ido visitar esta mágico lugar.
Diria que foi um bonito interlúdio nesse corre-corre que nos cerca na capital bandeirante, que logo lembramos ao encarar a rodovia em volta de feriado. Definitivamente, espero voltar lá mais de uma vez. Obrigado Cris.